Há dores que rasgam.
Outras, silenciosamente,
nos esculpem.
Crescer pertence à segunda espécie.
É despedir-se da inocência
sem deixar de acreditar na beleza.
É descobrir que nem todo abraço abriga,
que nem toda promessa floresce,
que nem todo amor permanece.
Crescer é aprender
que o coração também muda de pele.
E, por algum tempo,
essa troca arde
como se a alma inteira estivesse
aprendendo a respirar outra vez.
Há um luto escondido
em cada versão de nós
que ficou para trás.
A menina que confiava sem medo,
a mulher que sonhava sem limites,
os dias em que o mundo parecia caber
na palma das mãos.
Mas a vida,
essa paciente escultora,
não nos fere por crueldade.
Ela apenas retira o excesso,
até revelar a força
que sempre esteve escondida.
E então entendemos:
a lágrima não era o fim,
era a água necessária
para que as raízes encontrassem profundidade.
Crescer dói,
porque nenhuma árvore alcança o céu
sem antes romper a dureza da própria terra.
E talvez seja exatamente esse
o milagre da existência:
descobrir que a dor,
quando atravessada com coragem,
não nos diminui.
Ela nos amplia.
Até que um dia,
olhando para trás,
já não agradecemos pelas feridas,
mas pela pessoa
que nasceu delas.
Rosaly Brandão


